Guerra urbana de facções no céu do Rio de Janeiro no Brasil
Guerra no céu se intensifica: explosivos lançados por drones já ferem moradores em ataques no Rio de Janeiro
Disputa de territórios teve ao menos sete explosivos lançados por drones em cinco meses
Os confrontos entre facções rivais ganharam um novo campo de batalha: os céus do Rio. Desde março, foram pelo menos sete casos de explosão de artefatos lançados por drones, seja em treinamentos de criminosos, seja em ataques. A maioria ocorreu nos últimos três meses, período em que as disputas territoriais se intensificaram. O episódio mais recente aconteceu no sábado, quando duas pessoas que montavam brinquedos em uma festa.
A comunidade, que tem a maior parte de seu território controlada pelo Comando Vermelho (CV), vem sendo alvo de ataques feitos por traficantes do Terceiro Comando Puro (TCP) ligados a Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão. O criminoso, um dos chefes da facção, domina favelas vizinhas — Parada de Lucas, Cidade Alta, Vigário Geral, Pica-Pau e Cinco Bocas —, região apelidada por ele de Complexo de Israel.
Vento adia ‘Aulão’
Antes do ataque à Favela dos Dourados, na madrugada do dia 31, uma granada explodiu e atingiu um imóvel no Complexo da Penha durante um suposto treinamento para o uso de drones em guerras ou no monitoramento de rivais e da polícia. O conjunto de favelas tem o tráfico de drogas comandado por Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso. Segundo a polícia, ele é suspeito de integrar a cúpula do CV e de ordenar ataques a territórios controlados por outras facções.
A polícia investiga a informação de que um “aulão” para ensinar como usar esses equipamentos chegou a ser marcado no Complexo da Penha. O evento foi anunciado em uma postagem feita nas redes sociais por uma pessoa ligada a um traficante da região. Imagens recebidas pela Polícia Civil mostram homens armados com fuzis caminhando em direção ao suposto local de treinamento. À frente deles, uma mulher, que carregava uma criança, abria caminho para a passagem dos suspeitos. Em outra imagem, oito fuzis podem ser vistos encostados em uma parede. A aula para operar os drones, marcada para 17 de julho, no entanto, acabou não ocorrendo. O cancelamento teria ocorrido devido às condições meteorológicas desfavoráveis: ventos fortes.
Um policial que investiga o tráfico no Complexo da Penha revelou que os bandidos, além de utilizarem drones para lançar granadas, também têm veículos não tripulados capazes de localizar outras aeronaves do mesmo tipo.
— Eles usam os drones para fazer monitoramento. O equipamento funciona como se fosse um radar. Ele é capaz de informar se há outro drone na área e de onde a aeronave está sendo operada — explicou o investigador.
Os feridos na explosão ocorrida na Favela dos Dourados não são as únicas vítimas do perigo que vem do céu. No dia 29 de maio, um adolescente de 15 anos sofreu uma fratura exposta em uma das pernas. Ele estava no Morro da Caixa D’Água, na Penha, quando um drone teria lançado uma granada no local. Quase dois meses antes, no dia 30 de março, outro explosivo atingiu um imóvel na Vila do Sapê, em Curicica, na Zona Sudoeste. O caso aconteceu durante um ataque de traficantes do CV a uma área com territórios dominados pela milícia.
Os outros casos ocorreram em junho e julho. Os que mais chamaram a atenção foram o de um prédio atingido por um artefato no Parque Dois Irmãos, em Curicica, e o de uma granada encontrada sobre uma creche na Favela do Dique, no Jardim América, na Zona Norte. Neste último episódio, o explosivo foi encontrado intacto e precisou ser detonado por policiais do Esquadrão Antibombas.
Um morador de uma comunidade de Curicica, que não teve o nome divulgado por questão de segurança, contou estar traumatizado com as explosões de bombas lançadas por drones:
— Parece que estamos num campo de guerra. Vivemos traumatizados com bombas que são lançadas por drones sobre as nossas casas.
Equipamentos chineses
No fim de março, a Polícia Civil anunciou a compra de drones chineses de seis modelos diferentes — entre eles, os que têm sensores térmicos para localizar suspeitos escondidos em áreas de mata e aqueles capazes de captar imagens noturnas. Na mesma ocasião, a corporação informou ter criado a Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (Coant). O novo setor, subordinado à Subsecretaria de Integração Operacional, dará apoio a operações policiais e ajudará em ações de inteligência, como, por exemplo, o mapeamento de determinadas áreas.
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Os drones estão incluídos em um pacote de aquisição de equipamentos de inovação tecnológica para a Polícia Civil. Nos dois últimos anos, os gastos — que incluem ainda a compra de softwares para extração de dados telemáticos — chegaram à casa de R$ 2,1 milhões.
Em nota, a Polícia Militar informou que “não possui, até o momento, um levantamento estatístico específico sobre ocorrências envolvendo o lançamento de granadas por drones”. Acrescentou que o uso desses equipamentos por organizações criminosas “representa uma evolução das táticas utilizadas por esses grupos”.
Procurada, a Polícia Civil afirmou que monitora “o uso de tecnologias empregadas por essas facções para dificultar a ação das forças de segurança”. Segundo a polícia, as delegacias “realizam diligências contínuas para mapear o uso de drones por criminosos”.
De fuzil antidrones a treinamento de traficantes na Ucrânia
Apesar de as ocorrências com drones estarem mais frequentes nos últimos meses, os órgãos de segurança pública do estado investigam o uso desses equipamentos pelas organizações criminosas desde 2017, quando se descobriu a aquisição deles por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, do TCP. Chefe do tráfico nas comunidades Cinco Bocas, Cidade Alta, Pica-Pau, Parada de Lucas e Vigário Geral — o Complexo de Israel —, Peixão usaria os drones para monitoramento de rivais, principalmente do CV na Penha, e de agentes públicos.
De lá para cá, o uso desse tipo de aeronave se espalhou. Em 2024, policiais federais prenderam, em flagrante, um homem em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, ao receber, pelos Correios, um fuzil antidrones. A informação foi passada aos agentes por funcionários da Receita Federal, que suspeitavam do pacote vindo da Ásia. Naquele mesmo ano, a Polícia Civil investigou um homem que pilotava um drone responsável por lançar uma bomba caseira em uma comunidade de Cordovil, na Zona Norte.
No ano seguinte, a Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Capital (DRE) iniciou uma investigação contra um brasileiro ligado ao CV que se voluntariou para atuar na guerra entre Rússia e Ucrânia. Ele teria ido ao Leste Europeu custeado pela facção para aprimorar táticas de guerrilha e ensiná-las posteriormente aos comparsas no Rio. O mesmo aconteceu em relação a outro integrante do grupo: ao voltar da Ucrania, ele foi flagrado por uma aeronave da PM ministrando treinamento com um drone de cerca de três metros no Complexo do Alemão. A data do monitoramento não foi divulgada pela corporação.
Drones de grande porte
E não para por aí. Investigações da PF que levaram o ex-deputado estadual Tiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Jóias, à prisão por envolvimento com o CV, em 2025, revelaram que ele e um assessor intermediaram a compra ilegal de antidrones para a facção. As conversas mostram que parte do valor de R$ 750 mil foi quitada com o pagamento de R$ 55 mil em notas de R$ 2. Na época, TH Jóias ainda não ocupava uma cadeira na Alerj, mas já tinha sido eleito suplente de deputado.
Já este ano, investigações da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança do Rio identificaram que traficantes do Alemão, dominado pelo CV, adquiriram drones de grande porte usados originalmente em atividades agrícolas e transporte de carga. Os equipamentos têm capacidade para carregar até 80 quilos —peso equivalente a cerca de 20 fuzis —, autonomia de até 12 quilômetros e custo superior a R$ 200 mil por unidade.

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