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sexta-feira, 4 de junho de 2021

 

O QUE ESPERAR QUANDO O DIA RAIAR

Tempos difíceis geram homens fortes. Homens fortes produzem os tempos bons. Tempos bons tornam os homens fracos. Homens fracos fazem os tempos ficarem difíceis.” E então o ciclo se repete indefinidamente, com o indelével testemunho da História a nos mostrar, mesmo que de forma difusa, uma réstia de luz no horizonte distante, neste tempo atípico em que vivemos, a nos mostrar uma saída.

De fato, vivemos dias difíceis, dias de trevas e não de luz; dias de intrigas, não de união; dias de embates tolos, não de busca do conhecimento; dias de vergonha, tristeza, dor, agonia, perdas, enfim, dias de espessas trevas, não de bênção e luz divinas, como se a noite dos infortúnios perdurasse infinda nos corações dos aflitos e desorientados espíritos humanos. Que a luz brilhe! E que venham os homens (gênero humano) fortes de que precisamos.

Não, não sou nem pareço um pessimista, apenas exerço aqui a sensatez de identificar o diagnóstico dos tempos difíceis em que vivemos hoje. Nunca se viu, em toda a História, um tempo como este, que Jesus chamou de “princípio das dores”, quando a mentira triunfa sobre a verdade, a nulidade se sobressai ao talento, a unidade familiar é fissurada por insanas e apaixonadas discussões políticas, as amizades sucumbem às traições, o amor é pisoteado pela indiferença, a injustiça dos interesses inconfessáveis se veste de mentira e egoísmo para, então, subjugar a verdade e a justiça, gerando caos social e insegurança jurídica.

Lembro-me da parábola em que um velho sábio pergunta a seus alunos: “Como podemos saber que a noite é finda e o dia está raiando?”. Um dos alunos respondeu: “Quando vemos uma árvore à distância e sabemos se é uma mangueira ou um jambeiro”. “Quando vemos um animal e sabemos que é uma raposa, não um lobo”, respondeu outro. “Não”, disse o mestre. Os alunos, confusos, esperaram a reposta. O sábio calmamente respondeu: “Sabemos que o dia está raiando quando vemos outra pessoa e sabemos que é nosso irmão ou irmã. Do contrário, não importa que horas sejam, ainda é noite”.

Esta pequena estória ilustra o quanto é importante enxergar o “outro” pelo seu valor intrínseco como pessoa, pelo que Deus lhe conferiu, não por causa de aparências, títulos ou conveniências sociais. É uma pessoa, merece respeito. É meu irmão ou irmã em Cristo, merece respeito. E respeitar as pessoas é uma forma inconteste de demonstrar amor.

Creio que essa verdade perpassava a mente de Jesus quando se dirigiu a Seus discípulos e recomendou e “receita” que os identificaria como “seus discípulos” perante o mundo: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.35).

Uma das mais sutis formas de desrespeito é o não reconhecimento do labor de alguém, só pelo fato do seu trabalho ser “diferente”. Não respeitar diferenças é o mesmo que querer fazer um jambeiro parecer com uma mangueira; ou o lobo parecer com uma raposa. É necessário, pois, respeitar as diferenças de opinião como isso mesmo, jamais desrespeitar a integridade do outro, nunca tripudiar sobre diferenças de crenças, pelo simples motivo de que nada disso torna alguém mais humano nem superior; antes, pelo contrário, apenas demonstra quão raso e em trevas seu espírito se encontra.

O apóstolo Paulo foi categórico em exaltar o valor intrínseco de cada discípulo de Cristo, exatamente em expor as diferenças entre os mesmos, quando fez a analogia do corpo: “Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo” (1Co 12.12).

Lembro-me da estória de um homem que, por causa da catarata, passara muitos anos sem enxergar, a não ser borrões. Depois de passar por uma delicada cirurgia, passou a usar óculos “fundo-de-garrafa”. O homem ficou maravilhado com as paisagens, a beleza das cores, que há muito não via. Mas seu nariz protuberante protestou veementemente: “Chega, é muito peso! Se quiseres olhar bem, coloque esses óculos em outro lugar, não em mim. Eu não preciso deles!”.

Depois de muito protestar, finalmente foi atendido. Na primeira caminhada daquele homem “sem óculos”, ele deu uma forte topada e caiu de frente, e foi parar no hospital. Quando saiu, estampava na face os curativos de um nariz bastante machucado.

Paulo fez essa mesma apologia: “O certo é que há muitos membros, mas um só corpo. Não podem os olhos dizer à mão: Não precisamos de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: Não preciso de vós. Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos são necessários” (1Co 12.20-22).

Às vezes queremos ser exclusivistas, achando que a graça de Deus achou o “caminho certo” em nós, e que todos os outros estão errados tão somente porque não estão do “nosso lado”. Foi o que ocorreu com os discípulos, que disseram a Jesus: “Mestre, vimos certo homem que, em teu nome, expelia demônios e lho proibimos, porque não segue conosco”. Mas Jesus lhes disse: “Não proibais; pois quem não é contra vós outros é por vós” (Lc 9.49-50).

Pedro aprendeu a lição, e disse: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe 4.10). Para alguns, a graça é uniforme, não multiforme; é a “minha” graça, o meu jeito de fazer as coisas.

A lógica perversa é esta: se nossos métodos são diferentes, então o “outro” tem de estar errado. Ora, “quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” (1Co 4.7).

Paulo expressou a mesma solicitude, ao julgar diferentes formas de pregação do evangelho, inclusive as impróprias: “Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa vontade… Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei” (Fp 1.15-18).

Agora, não devemos de modo algum confundir graça com conivência, nem amor com frouxidão moral, tampouco “deixa como está pra ver como é que fica” com “vai e não peques mais”. Pois está escrito: “Cada um dará contas de si mesmo a Deus” (Rm 14.12).

O dia está raiando. Assim, pois, temos de relembrar que mesmo Jesus tenha falado desse tempo difícil como um inevitável “princípio das dores”, Ele também falou sobre o raiar de um novo dia, quando o Rei retornará em triunfo e restaurará todas as coisas. Nesse novo tempo porvir é que temos de focar a nossa visão e interesse como verdadeiros filhos de Deus, em fazendo a coisa certa e do modo certo, mesmo nas situações incertas.

 Se começarmos pela lição básica de amar e respeitar uns aos outros, deixando de murmurar e agindo por fé, então estaremos apenas no primeiro passo de refletir o amor do Pai, para sermos conhecidos como Seus filhos amados, pessoas cuja fortaleza está no Senhor e na força do Seu poder. Só assim nossa luz brilhará efetivamente no meio desta geração que precisa da verdadeira iluminação do Evangelho do Reino, pois “a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” (Pv.4.18). Só assim seremos as pessoas fortes de que o mundo precisa nestes tempos difíceis. Podemos conseguir isto, sim, desde que guiados pela Bíblia e pelo Espírito Santo. Amém!


Publicado por Vira-letra

Sou o que sou pela graça de Deus. Prefiro falar sobre o Blog Vira-letra... que pretende ser o "vira-lata" dos blogs. O que poderia mais comum na "blogosfera"? Um vira-lata não tem pedigree, depende só de Deus, abana o rabo para quem quer, late quando quer, vira a lata que quer, come quando Deus dá, não tem tutela a não ser da soberania de Deus. O vira-letra, igualmente, poderá escrever o que quiser. Como um "cachorrinho" que, ao invés de comer das "migalhas da mesa de seu dono", participa do próprio "pão dos filhos" e dele se alimenta; e deixa que outros tenham a mesma sorte. É isso que significa um vira-letra; é esse o propósito deste Blog. 

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