quinta-feira, 16 de abril de 2020

A última mensagem do funcionário do Socorrão 2 à esposa: "Amor, vou ser transferido novamente. Ontem o oxigênio aqui faltou e tô muito cansado. Foi uma noite horrível"
O técnico de radiologia do Hospital Municipal Clementino Moura, o Socorrão 2, Sérgio Henrique Saraiva Costa, conhecido como “Serginho”, morreu nessa quarta-feira (15), vítima do Covid-19.

“Serginho” é mais um profissional de saúde da capital maranhense vítima da Covid-19 que, segundo o boletim da Secretaria de Estado da Saúde (SES), já matou 37 pessoas no Maranhão.

Ele trabalhou por mais de 11 anos no Socorrão II, onde deixou amigos consternados com a perda de mais um competente e dedicado profissional de saúde.

Em um relato emocionante, compartilhado nas redes sociais, a esposa de “Serginho” revela o drama vivido por ele. “Ao primeiro sinal de gripe ele não dormiu no nosso quarto e nem foi trabalhar no dia seguinte. Preparei um quarto pra ele ficar isolado, pois poderia ser ou não a COVID. Eu levava água, comida e tudo que ele precisava. No banheiro, ao sair, ele limpava com álcool e água sanitária e eu em seguida reforçada a limpeza”, relata a esposa.

Ela prossegue: “Chegou ao ponto dele ser internado, pois a febre não parava e àss vezes o remédio nem fazia efeito, só tomando banho. Houve transferência da UPA para o Genésio Rego e todos os momentos falávamos por vídeo ou voz. Era uma tensão constante.”

No último contato com o marido, a esposa revela aquela que seria a mensagem final: “Amor, vou ser transferido novamente. Ontem o oxigênio aqui faltou e tô muito cansado. Foi uma noite horrível".

Leia a íntegra do relato emocionante feito pela esposa de “Serginho”

Olá, tive o desprazer de ver de perto o que é essa maldita doença, que levou meu companheiro, tínhamos uma relação de 22 anos. Relação cheia de fases, vitórias, lutas,  momentos bons e ruins e dificeis que só nos sabemos. E tivemos uma linda filha fruto desse amor. Ele, um excelente profissional da saúde e que tomava todos os cuidados no trabalho e quando chegava em casa, pra que a gente não se contaminasse. A roupa era colocada imediatamente pra lavar, higienizava o carro, tomava banho lá fora de casa, usava álcool pra  limpar as mãos e punhos, que já estavam despelando só de usar álcool 70.

Pois bem, ao primeiro sinal de gripe ele não dormiu no nosso quarto e nem foi trabalhar no dia seguinte. Preparei um quarto pra ele ficar isolado, pois poderia ser ou não a COVID. Eu levava água, comida e tudo que ele precisava. No banheiro, ao sair, ele limpava com álcool e agua sanitaria e eu em seguida reforçada a limpeza.

Chegou ao ponto dele ser internado, pois a febre não parava e às vezes o remédio nem fazia efeito, só  tomando banho. Houve transferência da UPA para o Genésio Rego e todos os momentos falávamos por vídeo ou voz. Era uma tensão constante.  "Amor, já tô melhor, tô 24h sem febre, a tosse diminuiu, e lá vinha ela novamente... febres, diarreia, tosse, temperatura às vezes baixa, soava frio que molhada toda roupa. Eu, de casa sem poder fazer nada, só orando e comemorando cada vez que ele sentia-se melhor... saiu o resultado do exame que deu positivo e logo foi transferido p outro leito.

O médico disse que possivelmente ele passaria mais 5 dias internado e depois voltaria pra casa para ficar em observação e em quarentena e já estávamos só na expectativa desse pesadelo acabar. De repente, ele cansa, cansa.... E foi para o oxigênio (sem intubação). Aumentaram a medicação.

Ele me liga por volta de meio dia:  "Amor, vou ser transferido novamente. Ontem o oxigênio aqui faltou e tô muito cansado. Foi uma noite horrível". Ele seria transferido durante o dia e não tive mais contato com ele, e nesse momento a angústia aumentou mais ainda, ficava desesperada, sem saber o que tinha acontecido (não respondidas as mensagens e ligação) liguei 16:40 e consegui falar com o médico, prontamente, que o Sérgio iria ser transferido pra o Carlos Macieira caso ele "precisasse fazer exames"!!!!??? só foi possível a transferência a noite e ele chega as 23h aproximadamente, e intubado. E não conseguiram mais reanima-lo... nesse intervalo de tempo eu sentia tanta angústia, é desesperador.

 E duas horas da manhã me ligaram pra comparecer no hospital pra dar a notícia. E como é que tô me sentindo?!?! Destroçada, acabada, um sofrimento só. Meu Deus, como não queria tá passando por isso!!!.

Após horas, tive que ver meu companheiro totalmente envelopado, e sendo carregado por homens equipados, pondo no caixão e ao mesmo tempo desinfetando o corpo e o caixão. Isso é duro e cruel, mas necessário. Uma dor tremenda. Não quero passar por isso novamente.

Fiquei muito surpresas por que muitos amigos foram prestar homenagem a ele, não teve velório, por procedimento. Só o enterro.  voltamos pra casa nós duas, pois não posso ficar com meus pais neste momento tão difícil, precisava muito ficar com eles, mas não posso por medida de segurança. Dói, dói muito!!!! Minha filha tenta me confortar, dizendo várias coisas que me impressiona.

Entao, se você aí que acha que o COVID mudou sua rotina de vida, na minha, esse vírus destruiu minha família.  E espero que ninguém passe por esses momentos tão difíceis. Porque, o que eu vejo aí são muitas pessoas despreocupadas, irresponsáveis, que saem sem proteção e ainda com sinais de gripe, pondo em risco a vida de todos a sua volta.

Não posso deixar de agradecer a minha família, e a família por parte dele, aos nossos amigos que de qualquer forma tentaram me confortar, por meio de orações, ou por meio de mensagem, agradeço as pessoas que me acompanhavam minhas irmas e cunhado e seus tios que sempre me orientando em várias situações burocráticas, pois eu esquecia até meu nome só de tristeza no alma.


Enfim, meu marido, assim como seus colegas/irmãos de trabalho, não tinham opção como ficar de quarentena, pois são profissionais de saúde e vão a luta todos os dias e não dá pra fazer serviço remoto. Então, cuidem-se pra que essa "gripezinha" não chegar a sua família.... Eu vou continuar fazendo a minha parte!!!!

Com informações do Gilberto Lima 

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